sábado, 26 de setembro de 2009

CONFLITOS PELA LAGOSTA: Disputa entre pescadores faz Icapuí reforçar policiamento

A competição acirrada existe há mais de 30 anos, entretanto, vem ampliando o raio de ação: do mar para a terra

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CLIMA DE TENSÃO: Icapuí está praticamente parada. O medo tomou conta da população. Para evitar novos confrontos entre pescadores, policiais fecham ruas e fazem revistas (Foto: Silvana Tarelho)

As comunidades pesqueiras do Litoral Leste do Ceará estão em pé de guerra na luta por espaços no mar para a captura da lagosta. Ameaças de morte, queima de barcos, denúncias de abusos e a falta de fiscalização acirram os ânimos. A sede de Icapuí vive dias de incerteza. A cidade está praticamente parada. O medo e a tensão tomaram conta de todos. A Câmara Municipal está sem funcionar há 15 dias. Vereadores sofreram intimidações e não querem correr riscos. O prefeito José Edilson Cirino quase não comparece à Prefeitura. A população se sente desprotegida. Exige alternativas.

Acuados, mil pescadores artesanais das praias de Redonda e Peroba estão sem entrar no mar há uma semana. Alguns se dizem "prontos" para tudo, outros aguardam intervenção pública. De braços cruzados, a única atitude do grupo é montar "guarda" na proteção das embarcações e dos dois barcos adquiridos por eles para fazer a fiscalização em alto-mar. O ponto de encontro é a Boca do Povo. "Só podemos esperar que a situação amenize. A comunidade só quer paz", assegura o pescador Raimundo Nonato da Costa, 56 anos, 46 dedicados à pesca.

Do outro lado do conflito, um verdadeiro batalhão de cinco mil pescadores de Barrinha, Barreira, Tremembé, Icapuí e Melancias, que usam marambaias, caçoeiras ou redes de arrasto e compressores de ar para mergulhar, capturar lagosta e destruir os manzoás dos legais. Eles não aceitam que os artesanais façam a fiscalização no mar com os dois barcos comprados pela comunidade e prometem "invadir" a praia dos rivais e queimar as embarcações. O grupo não quer acordo. A competição acirrada existe há mais de 30 anos, mas vem ampliando o raio de ação: do mar para a terra.

Na última tentativa de sessão, no dia 15, pescadores piratas tentaram invadir a Casa Parlamentar. Os alvos do grupo de manifestantes são dois vereadores - Manoel Jeová da Silva, o Cadá; e Raimundo Bonfim Braga, o Camundo. Eles representam as comunidades da Redonda e Peroba. "Estamos ameaçados de morrer se aparecermos na cidade", denuncia Cadá.

Para evitar choque entre as duas partes, a Polícia Militar reforçou o policiamento em Icapuí. Um efetivo de 26 PMs dos batalhões de Aracati e Russas, seis viaturas e quatro motos realizam ação ostensiva, com fechamento de ruas, abordagem de veículos e busca de armas.

A Companhia de Policiamento Rodoviário(CPRV) apóia a operação na parte de fiscalização e documentação do condutor e veículos. "A ação não tem tempo determinado para acabar", avisa o comandante da ação, capitão Paulo de Tarso.

Na próxima segunda, às 14h, uma comissão de pescadores artesanais e os nove vereadores de Icapuí terão audiência na Secretaria de Segurança Pública com o objetivo de requisitar segurança reforçada.

ÁREA SEM FISCALIZAÇÃO
Barcos do Ibama não são vistos

Receosos de ir pescar, os artesanais se queixam da falta de fiscalização do Ibama. "O órgão se comprometeu em fortalecer a vistoria no mar para coibir a ação dos piratas. Só ficaram aqui dois dias", denuncia O vereador e pescador Manoel Jeová. Nos dois dias em que permaneceu na área, a reportagem do Diário do Nordeste não viu os barcos do Ibama, apesar de o superintendente João Moreira Juvêncio, informar que duas lanchas do órgão, com oito integrantes, intensificaram a fiscalização na área de conflito.

Segundo ele, nas operações em junho e julho, 18 embarcações ilegais foram apreendidas pelo órgão no Litoral Leste. "Destas, três tinham compressores, sendo duas de Icapuí". As embarcações apreendidas terão "perdimento". "Elas serão repassadas para outros pescadores".

O chefe de fiscalização do Ibama, Rolfran Ribeiro, informou que a operação envolve o Ibama, a Marinha, a Polícia Federal e a Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca. "Fizemos reunião, quando foram traçadas estratégias para controlar os conflitos entre os pescadores.

Na ação definida, os fiscais do Ibama deverão permanecer de plantão, de 15 a 20 dias na área, para evitar novos embates e reforçar a fiscalização.

Os pescadores de Redonda afirmam que, sem essa fiscalização, fica quase impossível voltar a pesca. A última tentativa dos pescadores de entrarem no mar terminou em tiroteio.

"Estamos parados. Já teve troca de tiros na água. Fomos recebidos com tiros pelos pescadores que fazem a pesca predatória com compressores e não sabemos o que será daqui para diante", alerta o pescador Francisco Pereira da Silva.

Ele mostra um manzoá destruído pelos piratas. "Antes dessa briga, eu tirava de dez a 20 quilos por dia de lagosta do mar, esta semana nem um quilo consegui", lamenta.

LÊDA GONÇALVES
ENVIADA A ICAPUÍ

Fonte: DN

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